quinta-feira, 31 de março de 2016

Nikolai Vavilov: o primeiro guardião da biodiversidade vegetal

Artigo muito interessante sobre a história dramática do notável Nikolai Vavilov, do seu inimigo mortal Trofim Lisenko, e aborda uma questão essencial e pertinente sobre a problemática da influência e interferência da(s) ideologia(s) política(s) na Ciência.



“Foi um dos primeiros cientistas a ouvir realmente os agricultores tradicionais, a gente do campo de todo o mundo, para saber por que é que achavam que a diversidade das sementes era importante nos seus campos ”.

"Mas a partir de 1935, aquele que seria o maior inimigo de Vavilov – e aliás da genética e das ciências da vida soviéticas – começou a ensombrar a vida pessoal e profissional de Vavilov: Trofim Lisenko (1898-1976)."

"Ao contrário de Vavilov, que era de família burguesa e portanto suspeito – Lisenko era de origem camponesa e tinha conseguido fazer um curso de agronomia. De facto, o próprio Vavilov começou por louvar e promover o trabalho de Lisenko por achar que ele era um digno “filho” da revolução bolchevique."

"Em poucos anos, Lisenko tornou-se o “cientista” favorito de Estaline e o promotor de uma “genética soviética” que negava a própria existência dos genes e do ADN. Lisenko também fazia pouco da selecção natural, o processo basilar da teoria da evolução emitida por Darwin em meados do século XIX."

“Apesar de sofrerem eles próprios de subnutrição grave e apesar de trabalharem a poucos metros de uma vasta reserva de alimentos [sementes, tubérculos e fruta], os cientistas preferiram morrer a empobrecer a herança genética do país”, que “percebiam ser indispensável para o futuro da agricultura” soviética."


Fonte: Público

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O Infante


Aos homens ordenou que navegassem

Sempre mais longe para ver o que havia

E sempre para o Sul e que indagassem

O mar, a terra, o vento, a calmaria

Os povos e os astros

E no desconhecido cada dia entrassem. 



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN 

in O Búzio de Cós, Ed. Caminho, 1990

A Verdadeira Filosofia de Vida

Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia. 

1 - Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões. 
2 - Sê tolerante, porque não tens certeza de nada. 
3 - Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os actos. 
4 - Espera o melhor e prepara-te para o pior. 
5 - Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério. 
6 - Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem. 
7 - Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. 

Fernando Pessoa, 'Anotações de Fernando Pessoa (sem data)' 

sábado, 5 de dezembro de 2015

Num Dia Excessivamente Nítido

Num dia excessivamente nítido, 
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito 
Para nele não trabalhar nada, 
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores, 
O que talvez seja o Grande Segredo, 
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam. 
Vi que não há Natureza, 
Que Natureza não existe, 
Que há montes, vales, planícies, 
Que há árvores, flores, ervas, 
Que há rios e pedras, 
Mas que não há um todo a que isso pertença, 
Que um conjunto real e verdadeiro 
É uma doença das nossas idéias. 
A Natureza é partes sem um todo. 
Isto é talvez o tal mistério de que falam. 
Foi isto o que sem pensar nem parar, 
Acertei que devia ser a verdade 
Que todos andam a achar e que não acham, 
E que só eu, porque a não fui achar, achei. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLVII" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Boa notícia

No meio desta indefinição de não saber quem vai ser Governo, destas reuniões à esquerda e à direita, da incógnita se se deve manter a tradição portuguesa de quem ganha as eleições é que deve formar Governo, ou se é preferível a tradição nórdica de estabelecimento de coligações e entendimentos de forma a constituir uma maioria parlamentar e consequentemente Governo, sendo igualmente uma forma democrática e legítima de constituição de Governo. No meio destas incertezas, nas quais todos nos reveremos tendo em conta a crise que nos afecta a todos, mas apesar de tudo penso que estas incertezas representam também desafios novos para a sociedade e a democracia portuguesa, a que se terá de ajustar e evoluir. Apesar das incertezas, admito no entanto uma preferência para a segunda opção, penso que tal significa e dá um sinal de uma Democracia já mais amadurecida, talvez implique uma maior aptidão e empenho dos deputados eleitos na procura de convergências e consensos, exigindo mais destes, tornando desta forma o Parlamento mais activo e dinâmico, ao contrário do que tem sido. A juntar a isto calhou entretanto os candidatos à Presidência da República anunciarem as suas candidaturas, e perante os discursos de apresentação dos ditos, parece que também aqui a disputa vai ser renhida ao contrário do que provavelmente se pensava. A boa notícia destas notícias, é que dá a sensação que houve, para já, um regresso da Política (Definição de Política no Priberam: 1. Ciência do governo das nações) e do debate de ideias à sociedade portuguesa, algo há já muito tempo ausente, que pode contribuir para que os cidadãos se re-aproximarem à Causa Pública e dum despertar da Cidadania. É que a Política implica isso mesmo, confronto de ideias e ideologias democráticas no que concerne à ciência do governo da nação, só com esse confronto é que se consegue progredir, e foi isso que o Centro ou o denominado "arco da governação" tirou à sociedade portuguesa estes anos, o confronto de ideias e alternativas contribuindo para um vazio ideológico e sentimento de "pensamento único" e "não há alternativa" que os cidadãos intuem. A boa notícia é mesmo ter a sensação que há alternativas, e que o "arco da governação" se estende e alarga à Esquerda e à Direita, e mesmo ao Centro, ou pelo menos para outros "Centros" que não este Centro absoluto em que temos vivido. É que em Política, no que concerne à ciência do governo das nações, não há e não pode haver um Centro neutro e não ideológico, ou como muitos cidadãos gostam, de independente, porque a Política é dependente de consensos entre ideias e ideologias para progredir no governo da nação. A este pluralismo político é importante também ter um pluralismo da comunicação social, veículo de informação e formação dos Cidadãos, só assim é que é possível obter Cidadania que por sua vez sustenta a Democracia.

Leituras complementares: Uma solução estável
                                          Há muitos modos de formar Governo... e nem sempre com o vencedor das eleições


segunda-feira, 6 de julho de 2015

O naturalista que trocava cartas com Darwin

Um interessante artigo do Observador que nos dá a conhecer sobre a vida de um português autodidacta, polímata, "naturalista que trocava cartas com Darwin" e, atrevo-me a dizer, completamente desconhecido dos portugueses. Muito bom, vale a pena ler e conhecer mais sobre a curta (morreu aos 33 anos) e preenchida vida de Francisco de Arruda Furtado.
"Evolucionista e defensor de Darwin, Arruda Furtado desenvolveu estudos de anatomia comparada para compreender as relações entre espécies e a respetiva distribuição geográfica. A Darwin pediu conselhos e orientação científica para aprofundar conhecimentos e métodos de pesquisa, que rapidamente se prontificou para o ajudar. Mas a rede de contactos, iniciada em 1880, com 26 anos, não se limitava ao evolucionista britânico, tinha mais de 70 correspondentes nacionais e internacionais. Entre eles o biólogo inglês Louis Compton Miall, que se tornou tutor de Arruda, lhe forneceu livros e materiais, e o ajudou a realizar a primeira publicação numa revista científica."
Informação adicional: Francisco de Arruda Furtado - nota biográfica

Poema

No caminho, com Maiakóvsky
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Eduardo Alves da Costa