sábado, 20 de junho de 2015

A verdade ecológica





Saiu esta semana um estudo que refere que o mundo está a iniciar a sexta extinção em massa, onde a diversidade da vida no planeta se reduzirá e onde os humanos irão ser uma das espécies que irão desaparecer. As causas disto são já sabidas: alterações climáticas, poluição, desflorestação, erosão dos solos, acidificação dos oceanos, etc. O estudo refere que desde 1900 mais de 400 espécies de vertebrados desapareceram. Também esta semana foi publicada a Encíclica do Papa Francisco Laudato Si - sobre o cuidado da casa comum, contribuindo deste modo para o debate sobre as grandes e graves questões ambientais e ecológicas, como as alterações climáticas e os organismos geneticamente modificados, criticando a actuação de muitas empresas multinacionais na degradação ambiental, e onde relaciona e interliga a exploração e degradação ambiental com a exploração e degradação social e do Homem. O Papa Francisco já por várias vezes referiu uma interessante e sábia frase que terá aprendido com um velho agricultor: "Deus perdoa sempre e os homens às vezes, mas a Natureza nunca perdoa".
São duas notícias que se complementam e relacionam, o desaparecimento de várias espécies do mundo irá afectar o equilíbrio dos sistemas naturais, que por sua vez afectarão a Humanidade. Mas porquê é que o nosso sistema económico é incompatível e inimigo do ambiente e da ecologia? O nosso sistema económico foi criado numa altura em o que era valioso e escasso era o capital e o trabalho, naquela altura os recursos naturais não estavam ameaçados, havia ar puro e água limpa em abundância, então não se deu importância a isto, os Mercados não querem saber de coisas que existem em abundância pois os seus lucros serão mais baixos. Assim é legítimo perguntar, se tivéssemos que pagar para ter ar puro, para preservar uma paisagem, para uma abelha polinizar uma cultura agrícola que será posteriormente o nosso alimento, será que assim já dávamos valor aos recursos naturais e ao ambiente? Se atribuíssemos um preço aquilo que a natureza nos dá, afinal quanto estamos dispostos a pagar para ter ar puro? Quanto custa o trabalho que as abelhas fazem na polinização, ou seja, quanto teríamos que pagar a humanos para fazer esse trabalho de polinizar? O valor total económico da polinização foi estimado em 150 biliões de euros por ano. Haverá quem se indigne com isto, pois é eticamente reprovável pôr um preço na Natureza, a Natureza não tem preço e devia ser gratuita, pelo que não se deveria envolver dinheiro com a Natureza, que se deveria sensibilizar os cidadãos para estes problemas e para a proteção ambiental, mas será que só isso chega?
Como o nosso sistema económico foi criado numa altura e num mundo muito diferente do actual, induziu a uma distorção no preço das mercadorias e produtos que compramos na actualidade, ou seja, aquilo que compramos não reflecte o seu verdadeiro e real preço nem justo, não reflecte os custos indirectos que estiveram na base na produção de determinado produto. Por exemplo, quanto CO2 foi libertado para a atmosfera na produção de determinado produto? Quantas árvores foram abatidas? O ar e a água foram poluídos? É assim necessário que os Mercados digam a verdade ecológica respondendo a estas questões, reflectindo nos preços dos produtos que compramos e consumimos o seu real e verdadeiro valor. Para isso seria necessário reestruturar o sistema tributário, reduzindo os impostos sobre o trabalho e aumentando-os sobre as emissões de carbono e actividades ambientalmente destrutivas, incorporando deste modo estes custos indirectos nos preços de mercado, obrigando desta forma os Mercados a dizer a verdade. No início do novo milénio, um ex-Vice-Presidente da Exxon na Noruega constatou numa interessante frase: "O Socialismo falhou porque não permitiu o mercado dizer a verdade económica. O Capitalismo pode entrar em colapso por não deixar o mercado dizer a verdade ecológica." 

Informações adicionais: Artigo científico sobre a sexta extinção em massa
                                        Encíclica do Papa Francisco Laudato Si - sobre o cuidado da casa comum
                                        Lester Brown - Plano B, mobilização para salvar a civilização

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